MULHERES NO ATLETISMO
(Entrevista de Miriam Caldasso para a Revista SuperAção)

 

1. Nome? Miriam Caldasso.
2. Profissão? Preparadora Física, Treinadora em Atletismo e Personal Trainer.
3. Experiência em atletismo? Doze anos atleta de corridas de fundo, meio fundo, cross country, com participação em mundiais e maratona. Atual Recordista Estadual dos três mil metros rasos e, atual melhor tempo gaúcho nos cinco mil metros rasos.
4. Atual equipe ou área de atuação? Fundadora da equipe Miriam Caldasso, contando com mais de 100 atletas e Preparadora Física da Equipe de Atletismo dos Correios RS
(ECT RS).
5. O que a fez optar pelo atletismo? Quando pequena após sofrer um acidente, tive 99% de chances de nunca mais poder caminhar. Após este fato, eu travei uma luta comigo mesma e me superei tanto que consegui ultrapassar os que nunca tiveram as mesmas dificuldades. Acredito que a superação é o mais importante na vida das pessoas. Hoje com o meu trabalho, provo que todos podem se tornar tudo o que querem ser, tendo disciplina e determinação. Uma vez percorrida a distância, tudo é muito fácil. É isto que eu faço hoje. Eu recebo todo o tipo de alunos e provo para eles que através do desenvolvimento do corpo é possível melhorar até mesmo o resultado profissional nas empresas em que eles trabalham, pois a mesma garra e dedicação que a gente tem no treino, a gente conduz a vida, a empresa, etc...

6. Como era esse universo quando você começou e agora? Hoje a minha vida é muito melhor. Quando eu iniciei, realizei o sonho de ser atleta. Eu estabeleci um sonho muito grande e trabalhei para isto. Mesmo iniciando tarde e não tendo o biotipo e a estrutura sócio-financeira para isto, eu tive que cuidar de todos os detalhes para que se oportunizasse a minha vitória. Fui em busca de todos os recursos que possibilitassem a realização deste sonho. Era tanta a convicção no que eu queria, que isto aconteceu muito rápido. Hoje eu não paro de ganhar gente porque eu faço nos meus atletas tudo aquilo que eu gostaria que tivessem feito para mim. Eu queria naquela época ter encontrado uma Miriam Caldasso na minha vida. Eu descobri que os limites não existem. Tem que se ter coragem de assumir o que a gente quer e trabalhar para realizar os objetivos. A minha realização e provar para os meus alunos que o universo conspira a nosso favor, quando estas coisas estão claras.
7. Na sua opinião quais são as vantagens e desvantagens de ser mulher nesta área ainda dominada pelos homens? Na minha opinião o que interessa é a pessoa e não o gênero dela. Nunca fiquei pensando se eu sou homem ou mulher, mas sim na vontade que vem de dentro, no empenho e no amor que eu coloco nas coisas que eu faço.
8. Você já sofreu algum preconceito por causa do sexo em seu trabalho? Sim, mas o meu propósito é tão firme que eu não me fixo nestas coisas pequenas.
9. Como é a relação de uma treinadora com um aluno? Sempre quando vem um cliente novo para mim a pergunta mais importante é: - “Qual é o seu objetivo principal em relação às corridas?” A partir da resposta do cliente este mesmo objetivo passa a ser também a minha meta. Então, elaboro uma planilha de treinamento focada para tal, com base no condicionamento físico da pessoa e trabalho para realiza-lo no menor tempo possível.  Eu dou atalho para as pessoas por causa da minha experiência de corpo vivido. Como eu já passei por quase tudo, eu abrevio o caminho. No momento em que a pessoa atinge este objetivo vem uma satisfação muito grande e isto me alimenta. Não há diferença em trabalhar com alunos dos diferentes sexos. O que existe é um perfil de pessoas que ficam querendo o meu trabalho: Mulheres ou homens com garra e poder de superação, mas não no sexo em si.
10. O que difere o trabalho das mulheres e dos homens no ramo de treinamento? Quais são as qualidades e defeitos, se houver, das treinadoras? As mulheres têm mais sensibilidade do que os homens, por isso geralmente, elas captam os pequenos detalhes que fazem a grande diferença.

11. Você tem histórias curiosas para contar por ser mulher no atletismo? Experiências que vivenciou, problemas que enfrentou, histórias engraçadas, etc. Quais? Percorrendo a Meia-maratona Internacional de Passo de Los Libres, um percurso saindo e retornando a Argentina, ultrapassando apenas uma ponte, a de Uruguaiana, no Brasil, senti de perto a diferença cultural entre estes dois países.   Na Argentina, havia uma cobertura total da imprensa, um grande público aplaudindo, famílias inteiras nas ruas gritando para eu ter forcas, tudo com o maior respeito e admiração pelo atletismo e, ao entrar no Brasil, País pelo qual eu estava defendendo, eu escutava preconceitos, gritos como “Vai trabalhar V...”, e outras frases e atitudes menos dignas que eu não gostaria de mencionar aqui. Eu só iniciei a me sentir melhor quando eu atravessei a ponte de volta para o país vizinho. Isto foi um fato que eu nunca vou me esquecer, pois por um momento me senti envergonhada de ser brasileira. Aqui no Brasil estamos precisando de educação e cultura esportiva.
12. Na sua opinião está hegemonia masculina na modalidade será vencida pelas        mulheres? Os homens ainda chegam na frente, mas considerando que as mulheres iniciaram a participar das corridas muito mais tarde, posso considerar que elas já os superaram, pois o índice técnico atingido por elas, na proporção ao tempo é muito mais rápido do que a dos homens. Penso que para vencer nas corridas o que interessa é treinar com afinco e decisão, cuidando de todos detalhes como alimentação, suplementação, descanso, etc. Treinar certo com orientação de bons profissionais que cuide do conjunto corpo, mente e espírito (psicológico). Tanto o homem, quanto à mulher têm a mesma capacidade de se desenvolverem. Basta trabalhar para isso e dar tempo ao tempo para cada um atingir a maturidade no que se propõe.  

 

13. Como é a relação com os companheiros de trabalho? Há preconceitos? É difícil ganhar espaço nesta área? É, isto eu posso falar que não é fácil, mas acredito que a competência é o que ganha espaço.

14. Quais são os conselhos que você dá para as mulheres que gostam de atletismo e querem ser treinadoras? Nunca pensar que já sabe tudo. Tem que estudar, se informar muito, pois estamos numa constante evolução. Você tem que ser o espelho, o EXEMPLO.  O meu diferencial não é a formação superior e as especializações em treinamento, mas antes de tudo a gente precisa ter a experiência de corpo vivido.

Você não pode ensinar o que você ainda não fez, pois a gente não entende aquilo que a gente não vive”. Estou desenvolvendo o site www.correndo.com.br, que terá muitas dicas úteis para quem quer aprender sobre corridas.