Depoimento

 

ANTÔNIO CÉSAR COGO – Natural de Tuparendi/RS, estudante de Educação Física e atleta da Equipe Miriam Caldasso desde 2001. Das muitas provas que participa, um de seus maiores destaques é a obtenção do 3o. Lugar na geral do DESAFRIO URUBICI em 23/6/2007 – com o tempo de 4h32min15s, em um percurso muito difícil e montanhoso de 50 Km.

“O que mais me admira no César é a forma intensa e aventureira com que ele vive a vida. Já participou de muitos desafios e venceu vários limites. Tem o hábito de sair correndo ou caminhando para lugares distantes desconhecidos, tipo daqui a 100 Km ou mais. Ele me transmite uma paz e força interior muito grande, dentre outras muitas virtudes”. (Miriam Caldasso).

Veja o seu depoimento:

 

DEPOIMENTO DE ANTÔNIO CÉSAR COGO, SOBRE SEU TERCEIRO LUGAR NOS 50 KM DO DESAFRIO URUBICI, EM 23/6/2007.
Cresci no interior, Tuparendi/RS, e de lá trago a forte ligação e amor pela natureza; depois, servi três dos quatro anos de Exército em um pelotão de operações especiais; talvez isso tenha contribuído, mas o que me motivou a participar do DESAFRIO URUBICI 2006 foi à vontade de viajar nas férias, e aproveitar para explorar meu ponto forte: a resistência. 50km, e em montanha! Pareceria loucura há alguns anos atrás, mas penso ser a evolução natural: alguns maratonistas sentem vontade de partir para um desafio maior, e aí partem para o triatlon, ironman ou ultramaratona.
Então fui, e tudo que o site da ECOFLORIPA informava era verdade: um lugar lindo para turistas, um desafio e tanto para maratonistas! É uma prova em que vão poucos atletas -por não oferecer premiação em dinheiro, por ser na serra de SC e, portanto, não tão acessível para a grande maioria dos corredores por ter inscrição cara (é o que me disseram, mas se é pra ficar bebendo e fumando esse dinheiro acaba em dois fins de semana e ninguém acha isso loucura, engraçado não?! Mas não vou comprar briga com a turma festeira, digamos apenas que eles sentem prazer em nicotina e álcool e eu em endorfina), enfim, só a elite dos “verdadeiros atletas” estava lá; e quando eu uso esse termo, me refiro às pessoas comuns, que trabalham, treinam, sem patrocínio exclusivo, por amor ao esporte e se esforçam para servir de exemplo, como o nanico que venceu as quatro edições da prova e que ainda vai vencer várias, Luis Antonio dos Santos, de Curitiba. Esse cara é incrível (o “nanico” é brincadeira, o cara é gente fina pra caramba! ), e já completou 50 anos, Que exemplo!
Completei a prova com dificuldades, pois não treinei a especificidade da prova, ou seja: não treinei em terrenos semelhantes ao que iria encontrar lá-morros, trilhas, etc...-e fiz uma idiotice: tomei café faltando menos de uma hora para a largada. Resultado? Uma hipoglicemia de rebote e, como ainda estava digerindo o desjejum e não me hidratei, uma leve/moderada desidratação que me fez sentir câimbras horríveis (bem-feito, anos de corrida nas costas e cometer erros básicos...).
No hotel, subindo a escada que dava no meu quarto, pensei: “Tchê, o difícil não é correr 50km em montanha, difícil mesmo é subir essa escada!”; quando desatei a rir de mim mesmo tive câimbras na única parte do corpo que tinha ficado ilesa durante a prova: o abdômen. Mas a essa altura já tinha decidido que retornaria, sem cometer erros, e daria meu melhor.
Em 2007 surgiu a oportunidade de pôr o organismo à prova em uma ultra de verdade: a corrotododia, uma corrida em pista de 24hs. Seria em meados de maio, e eu estava treinando sério desde janeiro, então me inscrevi; duas semanas antes da prova fui atropelado em uma avenida quando retornava para casa após o trabalho (utilizei a bike para aumentar a quilometragem sem impacto, fazendo cross trainning ); o indivíduo saiu de uma rua secundária e fingiu que não me viu, me derrubou e eu bati forte o quadril e cotovelo, continuou andando e fazendo a curva passando por cima da bike – que ficou inutilizada- e NÃO PAROU! Continuou, e se eu não tivesse sido rápido ele teria passado por cima das minhas pernas. O trânsito no Brasil é um problema muito sério.
Mas DEUS é grande e eu fiquei bem; fui para Curitiba e fiz 68km em cinco horas, me sentindo superbem, então o quadril começou a doer de uma maneira preocupante, e eu, sabendo que a dor é normal em ultras, decidi evitar uma possível lesão mais grave e andei mais 8 km para então, desistir - o que me preocupava era a possibilidade de lesionar e depois ficar parado por meses. Fiquei frustrado, nunca tinha parado em provas antes e ainda mais tão cedo, mas decidi me recuperar e ir para Urubici; quem sabe não seja uma lição que eu tenha que aprender? Ser mais paciente e humilde, reconhecer meus limites e aceitar que ultras longas, afinal, são para (muito) poucos.
Chegando naquela cidadezinha escondida na serra catarinense tudo muda: o ar puro, as pessoas que te recebem superbem e te olham com admiração (vocês vão correr até o morro da igreja e voltar? Meu Deus!! ). Três dias atrás havia realizado o curso de reiki II, há muito aguardado e que me deixou extremamente feliz, em paz comigo mesmo; fui no ônibus lendo sobre nutrição (pois tinha prova na segunda-feira), olhando aquela paisagem maravilhosa e agradecendo a Deus por ter saúde, por estar ali e por poder rever uma paixão platônica, Urubici, minha musa inspiradora.
O kit da prova veio com uma camiseta de manga comprida de poliéster, ideal para correr no inverno. Algumas duplas a mais do que na edição anterior e a maioria repetindo a participação, prova de que, como eu, outros também se apaixonaram por Urubici e lá retornam. Na manhã seguinte largamos, com uma temperatura agradável de 15 graus, aproximadamente. O “nanico” assume a ponta de novo e some, quero ser como ele quando tiver 50 anos! Alguns até o ultrapassam, são os participantes da categoria DUPLA, que vão fazer só a metade e por isso mesmo não precisam dosar a energia para o retorno. Os outros, eu incluso, correm num ritmo mais comedido, enquanto o Luis Antonio engata um ritmo de 15 ou16 km/h e vai embora pelos 10 km iniciais, quase planos. Então damos de cara com a trilha de subida, na verdade uma ravina por onde escoa a água da chuva da montanha e onde é quase impossível correr, apenas caminhar morro acima, por quase dois quilômetros.
Depois dessa parte vem uma sucessão de subidas e descidas, porteiras, mato, cachoeira, enfim, tudo que se possa imaginar (esqueci a mini-ponte pênsil antes da subida!) até o primeiro posto de abastecimento, após o que percorremos por asfalto o trecho até o portão do CINDACTA II, base da Aeronáutica responsável pelo controle de tráfego aéreo da região sul, onde é o segundo posto e retorno.
Posso garantir que é de arrepiar olhar ao redor e ver só o topo das elevações vizinhas, uma experiência única; um grupo de motoqueiros estava fazendo um passeio e eu pude ouvir o comentário de uma moça: “e a gente achando grande coisa vir até aqui de moto,!!!”, disse ela para outro motoqueiro. O retorno é alucinante, mas não é só descida não! Tem pelo menos duas lombas de respeito, daí sim um longo trecho de descida até o terceiro posto de abastecimento completo; adiante meio quilômetro ainda por asfalto e entramos à esquerda, na trilha de descida (que começa com uma longa subida!), meu ponto favorito da prova! Em determinado ponto do trecho se vê, à esquerda lá embaixo uma fazendinha e muito verde, açude...Só esse trecho já vale a inscrição, a meu ver!
Então vem chegando, bem discreta, a descida! Depois que você passar por duas porteiras (a segunda me atrapalhei e não consegui abrir, e pulei!) vai surgir do nada uma descida alucinante até o penúltimo posto de água, muito desgastante e que trava muito a musculatura anterior da coxa. Chega-se finalmente no km 42, aproximadamente, e à parte plana do percurso; aqui os que não se pouparam travam, só quem tem “café no bule”, sai em condições de manter um ritmo “normal”, (significa, para todos, menos ao nanico da ponta, se arrastar até o final sem caminhar, o que já é uma grande coisa (gente! É tudo brincadeira, vocês sabem como corredor gosta de aumentar um pouquinho!!).
Mas quem foi sabe que a reta final parece nunca acabar. Incrível! Parecem 5 km, quando na realidade é apenas 1,5 km; Neste ano estavam no hotel, alunos da disciplina de atletismo da faculdade de Educação Física UNISUL, de Tubarão-SC, que auxiliaram a muitos atletas na chegada, orientando e realizando alongamentos e massagens, servindo repositores energéticos e eletrolíticos, água e uma sopa espetacular. Fica ali também uma mesa farta com bolos, salgados, frutas, enfim, tudo que se necessita para repor as energias gastas na prova. Nessa hora é só alegria, adorei ver pessoas que baixaram seus tempos e comemoravam, um rapaz que mora lá mesmo, em Urubici, e que eu havia ultrapassado lá pelo km 35 chegou logo depois em sexto na geral (e vai dar trabalho ano que vem!), isso é muito legal de ver, pois resume o espírito do atletismo: eu podia torcer pra que ele desistisse naquele ponto (km 35), mas que estímulo eu teria para progredir e tentar me superar? E que graça teria chegar em segundo na geral se ficasse torcendo pra que ele “quebrasse”? Repito, a maior vitória é baixar meu recorde pessoal, e chegar com um sorriso, o resto fica pra quem não trabalha, e tem 1,70m e 49 quilos. (Antônio César Cogo, em 15/8/2007).

 

VOLTAR