Depoimento

 

Uma corrida inesquecível para mim foi a Maratona de Porto Alegre de 2003, disputada em 1º de junho daquele ano. As boas recordações vão além do dia da prova, tendo início no período de preparação. Acumulei semanas de treino com ótimos resultados, tanto na pista com nos longões dos domingos. Em praticamente todo este trabalho contei com a presença da minha treinadora, que nunca deixou de elogiar os meus resultados. Ainda lembro dela à beira da pista quando eu fazia os tiros longos, de 3.000 e 5.000 metros. Em algumas voltas, quando eu passava na frente dela, ouvia frases do tipo "Vai guri!", "Tá bem, hein!". Tudo isto serviu de motivação para o grande dia.
Na véspera da prova, fui ao ginásio da Brigada Militar de manhã para retirar o kit. Lá encontrei dois colegas, um deles trabalhava na organização do evento e o outro era treinador de atletismo. Ambos tinham visto eu treinar para a maratona, me desejaram boa prova e disseram que eu conseguiria um grande resultado.
Tudo isto criou um clima muito positivo para mim, me deu muita confiança. Mas em momento algum deixei que aquela energia positiva se transformasse em euforia. Aliás, era a minha primeira maratona e, mesmo que eu já tivesse treinado vários longões de 30 a 32 quilômetros no período de preparação, esta diferença de 10Km que faltava para fechar a maratona representava, na minha visão, "os mares nunca antes navegados". No dia da prova, correria uma distância até então desconhecida pelo meu corpo e pela minha mente.
Não fui ao jantar de massas, pois tive que trabalhar na tarde da véspera. Como, neste dia, já eram 20h e eu ainda estava na fábrica, fui ao refeitório ver o que tinha para jantar. Nada mal: arroz, feijão, batata-doce cozida (pufffff...) e carne. Comi lá mesmo e depois fui direto para a minha casa dormir.
Acordei descansado e disposto. Após o café da manhã e de um tempinho para a digestão, tomei banho, vesti o uniforme e fui até o local da largada trotando leve. Da minha casa até lá tinha 1,5k, mais ou menos. Aqueci por mais uns 15 minutos, alonguei, bebi água, fui ao banheiro pela última vez, troquei votos de boa prova com os colegas e, às 7 horas daquele domingo, um tiro de canhão marcou o início da corrida. Percorri os primeiros 10 quilômetros tranqüilamente. Neste trecho, passei por duas colegas da equipe que tinham largado alguns minutos antes, no bloco feminino. O "Vai paulista!" que elas gritaram não podia passar em branco. Ergui rapidamente os braços como quem vibra com um gol e voltei ao batente. Em seguida, a Miriam se aproximou de mim com sua moto, aceitei a água com maltodextrina que ela me ofereceu e, depois de beber uma parte, passei a garrafinha a dois colegas que corriam ao meu lado. Longe de qualque demagogia, queria duelar com adversários em igualdade de condições; que todos dispusessem das mesmas "armas" para lutar. O trecho do 15º ao 32º quilômetro foi o espaço mais importante para mim em termos competitivos, pois foi aí que eu travei o meu maior duelo na prova, e aonde eu também consolidei o ritmo e praticamente defini a minha colocação final.
O duelo foi uma história à parte. Mais ou menos no Km 15, um corredor me ultrapassou e abriu uma distância razoável. Como eu estava consciente de que o meu ritmo não estava caindo, fiquei tranqüilo e não mudei de estratégia. Dito e feito; uns 3k depois eu estava ao lado do cara, sem ter forçado o meu ritmo. Mas ele era bom e nós corremos juntos até o Km 26 quando, mais uma vez, ele ficou à minha frente, abrindo uma distância maior que na primeira vez. Já não sabia ao certo se ele que tinha forçado o ritmo de novo ou se eu estava "quebrando", mas tinha certeza de uma coisa: deveria continuar correndo do mesmo jeito, e foi isto que eu fiz.
Nesta ora até esqueci do meu adversário, procurei cuidar de mim com água e carboidrato em gel. Foi quando, do Km 30 ao 32, eu reduzi drasticamente a distância que ele tinha aberto sobre mim um pouco antes. Passei o Km 32 com 5 minutos a menos em relação ao tempo que eu fazia nos longões, uma confirmação de que eu estava muito bem, porém mais um tempero para a dúvida de como seriam os últimos 10k "nunca antes navegados".
Logo após ao Km 32 já estava grudado no cara de novo, foi quando ele olhou para trás e me viu ali. Com os meus olhos, eu disse: "Surpresa!". Até hoje não sei se ele entendeu, mas foi ali que eu dei o cheque-mate nele e corri o restante da prova isolado na minha posição. Deve ter sido por volta do Km 36 que a Miriam apareceu ao meu lado, de moto, pela terceira vez. A segunda foi quando eu completei a meia maratona. Naquele momento fui surpreendido por um sentimento que eu esperava somente para o final da corrida, ou após a linha de chegada. Fiquei emocionado. Por que?! Após me dar água com maltodextrina, a Miriam começou a me dizer coisas muito bonitas. Não me lembro com exatidão das frases, mas elas foram mais ou menos assim: "Tu tá correndo tão bem, que legal, Rodrigo!", "Ano que vem a gente volta pra ganhar!", "Tu é um baita atleta, me enche de orgulho!", "Olha, parabéns, tudo isto é pra ti!".
Em meio à respiração ofegante e reprimindo um princípio de choro, ainda deu pra responder à ela "Pra ti também, tu também merece!". Ao ver a minha situação, ela disse: "Agora te acalma, não precisa falar comigo agora!". Só de escrever isso já fico com os olhos marejados... Guardo tudo isto como um tesouro.
E eu fui para os quilômetros finais. Faltando 2k para terminar o jornada, a minha "batedora" surgiu novamente, agora sem romances, focada em aumentar o meu ritmo no sprint final. Passamos por um grupo de amigas da Miriam, que nos aplaudiram e cumprimentaram. "É meu aluno!", gritou a Miriam. Prova mais sincera do orgulho que ela sentia, impossível. "Vai Rodrigo, não é para ficar se poupando agora, força! Lembra daquele treino progressivo? Faça a mesma coisa!" Eu bem que tentei, devo até ter aumentado o ritmo um pouco, porém tive uma cãibra leve na virilha, me impedindo de forçar mais. Tudo bem, ainda deu para manter uma boa passada até o final, digna de quem teve a Benção de pôr em prática, e na hora certa, tudo aquilo que foi exaustivamente trabalhado em 4 meses, como um aluno de uma orquestra que pratica o seu instrumento em silêncio, por horas a fio, esperando pelo grande dia da apresentação. A disciplina é fundamental.

Nos metros finais, as últimas palavras da minha batedora particular. "Veja o público te aplaudindo! Que bonito! Curta este momento!". Corri os metros finais sorridente, agradencendo ao carisma do público jogando beijos, os braços soltos. Cruzei a linha de chegada com 2h33:22, 13º colocado no geral e em 2º na minha faixa etária. Missão cumprida.
Lembra do colega da organização que me cumprimentou na véspera, quando fui retirar o kit? Ao me ver, veio me felicitar e me deu um beijo no rosto. Para mim, foi uma grande demonstração de reconhecimento e respeito pelo meu trabalho. Não faz parte da nossa cultura um homem beijar o outro, mas foi assim que eu entendi aquele gesto.
Precisa explicar mais porquê esta corrida foi inesquecível? Técnica e psicologicamente, as coisas deram muito certo.
Em 2004, não corri a maratona por ter me lesionado no Revezamento Volta à Ilha, onde fomos bi-campeões na categoria quarteto. Quero corrê-la em 2005. Sei que os momentos de felicidade são únicos; eu nunca terei uma reprise daquilo que vivi em 2003.

Mas, como "Deus ajuda quem cedo madruga", espero cumprir o próximo planejamento e colher bons frutos.
Assim, momentos inesquecíveis virão com novas versões.

Atenciosamente.